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O despertador tocou e você, apesar de conscientemente saber que não tem tanto tempo assim para se arrumar e ir ao trabalho, decide relaxar por mais uns dez minutinhos, nesse momento passa mentalmente suas atribuições para aquele dia e acaba sentindo um pouco mais de preguiça, mas você precisa começar a se arrumar, não é mesmo? Mesmo preferindo estar na cama, de alguma forma, entende que é melhor se levantar e começar com seu ritual matinal, ou até mesmo praticar uma atividade física.

Todas essas ocorrências estão sendo moduladas o tempo todo, ao acordar o seu cérebro já calcula, sem que você perceba, todas as possibilidades que estão à sua frente naquele dia e é ele quem lhe envia as informações necessárias que vão te motivar a se levantar para mais um dia, ou não. Todo esse processamento vem sendo formado ao longo de toda a sua vida e pela maneira que seu cérebro reconhece os estímulos externos como mais ou menos fundamentais. 

Por exemplo, diante da possibilidade de ficar até mais tarde na cama você pode até acordar no mesmo horário, mas pode ser que dificilmente você se levante tão prontamente de quando você tem um compromisso, e aqueles dez minutos a mais podem se tornar vinte ou trinta.

Assim sendo, a ciência vem se debruçando na tentativa de compreender como esse mecanismo de motivação ou evitação se forma e tem se alterado ao longo dos anos e como as alterações em nosso ambiente, geradas por nós mesmos, tem alterado nossos hábitos. Nesse sentido a ciência comportamental vem encontrando algumas respostas dentro da biologia através da neurociência. A neurociência com foco no comportamento humano já demonstrou que a maior parte das decisões que tomamos são controladas pela parte inconsciente do nosso cérebro. 

Sim, isso pode parecer conflituoso, pensar que não tomamos decisões conscientemente na maior parte do tempo pode assustar, mas pense no seguinte exemplo: você está caminhando em um shopping quando vê uma promoção “imperdível”, logo você entra na loja, pergunta sobre o produto da vitrine, ainda desconfiado sobre como aquele produto que você estava querendo por tanto tempo pode estar com uma condição tão boa. 

O vendedor lhe explica que estão em queima de estoque ou qualquer outra justificativa e você logo se convence que está diante de uma ótima oportunidade e faz a compra, sai feliz da loja com seu novo produto e, de repente pode ser que surja uma leve ponta de dúvida em relação ao que acabou de fazer. 

Já aconteceu de fazer uma compra e quando chega em casa se sentir arrependido porque só então você pensou que a fatura do cartão estava muito alta e você tinha se proposto a economizar, pelo menos até virar o cartão? Porque esse pensamento não se fez acessível durante todo o processo de entrar na loja, conversar com o vendedor e efetuar a compra? 

Essa sensação é uma demonstração de que, ao comprar aquele produto você respondeu a uma reação fisiológica sem um processo de deliberação sobre seus atos e é justamente isso que as empresas procuram fazer, elas tentam gerar um apelo para que você faça decisões sob o efeito de substâncias químicas corporais geradas pela percepção de uma grande recompensa por um esforço reduzido ou quase inexistente. 

Essa mesma percepção de “peso na consciência” pode acontecer quando você fura a dieta, você sabe que não precisa comer tanto, se propôs a cumprir com um programa de dieta para reduzir alguns quilinhos, mas estando com muita fome se depara com aquele fast food apelativo cheio de energia de fácil absorção e no momento pensa que não tem nada de mais em dar só uma escapada, porém, após se saciar você passa a se sentir cheio, estufado e todas as substâncias químicas e conexões cerebrais que te estimulam a comer são substituídas por outras conexões e substâncias, sabe aquela preguiça depois de comer demais no almoço de domingo?

Então você percebe que podia ter pensado melhor antes de ter pedido o “combo ultra” ou até mesmo que podia ter feito a opção mais saudável do restaurante ao lado.

Então, o que faz com que você tome decisões que logo depois se arrepende ou percebe que não era a melhor opção? Para tentar lançar um pouco de luz à essa questão tentaremos tratar de como nosso cérebro estabelece prioridades, mesmo que de modo consciente não concordemos com suas decisões, e porque ele funciona dessa maneira. 

Nesse sentido, em relação a atividade física e o processo de tomada de decisão inconsciente do nosso cérebro, a pergunta que se faz é: porque, apesar de sermos conscientes da importância da prática de atividade física e de evitar longos períodos em comportamento sedentário estamos adoecendo, cada vez mais, por doenças que estão diretamente relacionadas à esses comportamentos? Continue lendo e entenda melhor.

Métodos

Para tanto, através de uma revisão narrativa vamos identificar períodos na nossa história em que as mudanças ambientais ocorridas pelo processo de evolução da humanidade alteraram nosso comportamento relacionado à saúde e qual um dos possíveis papéis do cérebro nessa relação. Para busca dos artigos utilizados nesta revisão narrativa foi utilizado a base de dados Pubmed, livros e websites institucionais. 

Comportamento e ambiente

A humanidade vem passando por uma alteração drástica em seu comportamento ao longo dos anos, comportamento esse que não é acompanhado por alterações orgânicas capazes de acompanhar esse ritmo de alteração comportamental relacionada ao engajamento em atividade física. 

Principalmente após a revolução industrial, mas desde o advento da agricultura (entre dez a doze mil anos), a relação “indivíduo/atividade física” têm se transformado, em tal magnitude, que é justamente o desequilíbrio dessa interação a causa principal do desenvolvimento de doenças crônico degenerativas não transmissíveis, sendo essas de ordem musculoesqueléticas, mentais e metabólicas. 

Portanto, o humano, que caçava e coletava tinha a atividade física como uma imposição do ambiente e essa pressão evolutiva foi capaz de gerar alterações à nível de DNA, transformando o organismo humano dependente do movimento para o seu melhor funcionamento. Nesse contínuo, nos dias atuais, o ambiente é transformado pelo ser humano trazendo as comodidades do mundo moderno.

No entanto, essa comodidade, dentre os muitos benefícios como o próprio aumento da expectativa de vida, têm ocasionado o aumento do comportamento sedentário, porém, essa transição comportamental não se trata de uma pressão evolutiva, sendo insuficiente para proporcionar alterações genéticas tão proeminentes a ponto do organismo humano se tornar mais eficiente ao utilizar gordura como fonte de energia. 

Geneticamente ainda somos muito semelhantes ao homem das cavernas, para o qual, gordura armazenada representava maiores chances de sobreviver em um mundo hostil, que hoje, apesar dos pesares, não é mais tão hostil assim. 

Ser consciente não basta 

Para melhor entender a relação comportamental do ser humano com a atividade física é preciso estar claro, quando se analisa o ser humano do ponto de vista neurofisiológico, que ser consciente da importância de algo não é o mesmo que ser sensibilizado para aquele algo. 

Dado o número de campanhas de incentivo à atividade física, bem como eventos que estimulam esse comportamento através de discussões, políticas públicas e privadas, pode-se supor que somos conscientes da importância da prática de atividade física, é plausível que mesmo sem saber dos benefícios da prática regular, em sua ampla gama, qualquer um responda que a atividade física é importante em nosso cotidiano. 

Dentre as iniciativas de incentivo à prática podemos citar:

  • A celebração do seis de abril como dia mundial da atividade física; 
  • O programa da sociedade brasileira de diabetes no dia 26 de junho promovendo a atividade física como mecanismo de controle da doença; 
  • Programas do sistema único de saúde (SUS) de incentivo “do corpo se cuida todos os dias” e “praticar atividade física é tão simples que você faz brincando” buscando o público pediátrico; 
  • O dia do desafio, que promove uma competição entre cidades de países distintos com características sociodemográficas semelhantes para identificar qual o mais ativo.

Porém, parece que o fato de sermos conscientes dessa importância não tem sido suficiente para que essa noção de necessidade recrute as áreas cerebrais necessárias, liberando hormônios e neurotransmissores que nos compelem ao movimento, sabemos disso pelo número crescente de indivíduos se engajando, cada vez mais em comportamentos sedentários e prática de atividade física insuficiente para gerar alterações metabólicas significativas à melhora dos parâmetros de saúde.

Portanto, para o ser humano, o “saber” parece não ser suficiente para motivá-lo a fazer, e essa ocorrência se evidencia claramente na prevalência de doenças cardiovasculares, altamente relacionadas a prática insuficiente de atividade física e comportamento sedentário, como as principais causas de morte no mundo todo, e mais preocupante ainda é que esse quadro tem sido observado não apenas na população adulta mas também na população pediátrica.

Nesse sentido, nos defrontamos com um problema multifacetado, pois, a prática insuficiente de atividade física e o sedentarismo geram outros acometimentos como problemas de ordem osteomuscular e com estreita relação a problemas mentais. 

Todos esses acometimentos, até que o indivíduo, eventualmente venha a óbito, pode gerar um ônus econômico de grandes proporções ao estado, haja vista que países como Estados Unidos, Japão, Noruega, entre outros, proporcionam a educação física escolar nos cinco dias da semana pela evidente compreensão de que a prevenção reflete em melhores indicadores subjetivos de percepção de qualidade de vida e bem estar e em indicadores objetivos relacionados à alterações metabólicas e hemodinâmicas satisfatórias e protetoras à saúde. 

Atividade física por imposição e não por escolha 

Em face ao exposto até o presente momento, o ser humano parece não estar sabendo lidar com os eventos que transformaram sua relação com a atividade física, do ponto de vista neurofisiológico, obtemos uma ótica com base no mecanismo de retroalimentação presente em todas regulações do organismo, esse mecanismo à grosso modo, funciona da seguinte maneira: se eu me alimento de algo com alto teor de açúcar simples, ao identificar o aumento da minha glicose sanguínea, meu organismo vai trabalhar para que esses níveis de açúcar se reduzam através da liberação de insulina, e a partir do momento que meu sistema verifica a redução da glicose ele também para de liberar a insulina. 

Este mecanismo, quando falamos de comportamento, é muito parecido, se faço algo e sou elogiado por isso a chance de repetir esse comportamento é maior do que quando sou repreendido, pois o cérebro associa àquele evento às liberações de dopamina, serotonina e endorfina que me fazem sentir bem.

Partindo desse entendimento devemos traçar uma cronologia de momentos históricos importantes por gerar enorme impacto no comportamento humano relacionado à atividade física. Assim sendo, ao observarmos o ser humano do período paleolítico (2,5 milhões de anos até 10.000 a.C.), desprovidos de técnicas sofisticadas, obtinham da atividade física seu principal mecanismo de sobrevivência. 

Nesse período o ser humano era acometido pelas intempéries da natureza, disputa por sobrevivência com outros grupos, fuga e luta contra predadores, caça e pela busca constante de abrigo.

Portanto, tínhamos a atividade física como uma imposição, onde, não praticá-la não era uma opção, isso pelo fato de que o ser humano não estava exposto à doenças que se desenvolviam de modo crônico, nossos ancestrais morriam precocemente por alguma vicissitude comum à esse período (ataque de predadores, fome, frio). 

Nesse sentido, a espécie hominídea desse período não tinha a opção de desligar o despertador, vivia sob constante estado de alerta e em função do ambiente, seus hábitos eram muito distintos do ser humano contemporâneo. 

Em sua rotina os primeiros espécimes hominídeos, os homo ergaster, não caçavam e viviam das carcaças de outro predadores, portanto deviam permanecer relativamente próximos a esses que podiam ser seus predadores se não tivessem cuidado em se manter fora do seu campo de visão e faro, para se alimentar com os restos de sua caça, para tanto precisava se aventurar em campo aberto arriscando sua vida, morrer devorado fazia parte da rotina, mas a recompensa fazia valer a pena o risco, mesmo desprovido de mecanismos complexos de raciocínio esse humano compreendia, intrinsecamente que a carne, rica em ácidos graxos, representava uma alavanca para sua evolução e manutenção de sua vida.

Portanto, estamos falando aqui do mesmo mecanismo de recompensa que modula nosso comportamento hoje (ser elogiado por um comportamento, sentir o prazer de comer algo que gosta muito, atingir uma meta em relação ao seu estado físico) funcionando à mais de dois milhões de anos, no caso dos homo ergaster, a recompensa maior era sobreviver por mais um dia, percepção que, nos dias de hoje, está nublada pelas comodidades que o mundo moderno nos oferece.

A reconhecida primeira grande revolução para a raça humana foi a manipulação da pedra permitindo a confecção de ferramentas rudimentares, mas que transformaram a relação desse humano primitivo com a natureza lhe fornecendo maiores chances contra predadores, o primeiro passo para se tornarem caçadores. 

Após milhares de anos os descendentes dos homo-ergaster descobriram e dominaram o fogo, outra grande revolução que abria caminho para fazer com que os humanos avançassem na cadeia alimentar.

Há 300.000 anos, já conhecendo o poder do fogo como arma, o homo erectus, sucessores mais evoluídos do homo ergaster, habitavam a região hoje conhecida como Europa ocidental tendo vencido todos as outras espécies de hominídeos, éramos enfim, poderosos predadores que já compreendiam que a caça em grupo era mais segura e eficaz do que a ação individual e através do instinto procuravam sua presa, era o ambiente fazendo com que reagissem sem muita capacidade de deliberar sobre estratégias avançadas. 

A prática da caça era ainda muito arriscada, portanto, o mecanismo inconsciente de recompensa em nosso cérebro atuava, facilitando o entendimento atual do porquê ser consciente não basta para iniciarmos uma ação, é preciso que o cérebro esteja diante de uma ameaça ou recompensa muito evidente (pelo menos para ele, cérebro) para ativar os circuitos neurais, hormonais e químicos para nos colocar em ação.

Nesse contínuo, foi com o advento, desenvolvimento e domínio da agricultura que o ser humano passou a se estabelecer em um único lugar por um período maior de tempo, esse controle sobre os recursos naturais, bem como a domesticação de animais para procriação e consumo já permitiu que sua expectativa de vida aumentasse e que ele pudesse começar a planejar suas provisões para épocas de difícil colheita, porém, já se evidencia aqui a primeira possível alteração mais proeminente na relação humano/atividade física, pois agora, esses indivíduos não precisavam caminhar tanto em busca de abrigo e alimento, porém, mesmo assim, a atividade física ainda fazia parte do cotidiano para várias outras práticas, representando ainda, uma demanda impositiva a nós humanos.

Interessante observar que foi uma “permissão” do ambiente que possibilitou o advento do cultivo, pois, após a última era glacial o planeta passou por um aquecimento global, e essa alteração ambiental favoreceu o cultivo de plantas e cereais, o solo se tornou mais fértil por conta de muitas chuvas e calor que sucederam a era glacial.

Assim sendo, com o ambiente favorecendo o cultivo, o homem passa, naturalmente, a optar por colher e replantar o alimento perto de seu acampamento do que andar por quilômetros para encontrar esses alimentos, portanto, nota-se aqui um importante fator em relação ao homem e a atividade física: deixar de praticar tanta atividade física pode ser reconhecido pelo nosso cérebro como um sinal de evolução e como uma grande recompensa. 

Consegue entender porquê, nos dias atuais é tão difícil iniciar e continuar em um programa de exercícios por tanto tempo? O seu inconsciente registrou que o comportamento sedentário é um grande prêmio por termos nos tornados tão inteligente a ponto de recebermos nossa “caça” no conforto do nosso lar, a atividade física passa a não mais se apresentar como um requisito básico para sobrevivência, fazendo emergir então, o “homo-sedentárius”. Brincadeiras à parte, mesmo reduzindo drasticamente seu nível de atividade física o ser humano era ainda muito mais ativo do que atualmente.

Prosseguindo em uma cronologia atada às relações do homem com a atividade física, temos o período da Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX) na Europa, também reconhecido como um período muito sensível para esta interação pelas rápidas mudanças sociais relacionadas ao trabalho e consequentemente à prática cotidiana de atividade física. 

Esse período é marcado pela substituição do trabalho artesanal pelo uso das máquinas, e mesmo nos casos em que a produção continuou sendo artesanal, passou a ser relegada às manufaturas (grandes oficinas onde vários artesãos realizavam tarefas manuais, porém, subordinados ao proprietário da manufatura).

A primeira etapa da revolução industrial, compreendida entre os anos de 1760 e 1860, inicialmente limitada à Inglaterra, foi impulsionada pelo uso do tear mecânico e o aprimoramento das máquinas à vapor, o que permitiu a continuidade da Revolução após sua primeira etapa (1760 a 1860). 

A partir de então Alemanha, Rússia, França e Itália se industrializaram e, juntamente com o emprego do aço, utilização da energia elétrica, combustíveis derivados do petróleo, invenção do motor a combustão, locomotiva a vapor e desenvolvimento de produtos químicos, marcaram a segunda fase da Revolução. 

No entanto, essa revolução sofreria ainda sua terceira etapa, a qual ainda estamos tentando entender e calcular a magnitude de sua influência em nosso comportamento relacionada à saúde. Marcada pelo advento tecnológico do século XX e XXI o computador, o fax, a engenharia genética e o telefone celular trouxeram e ainda estão trazendo drásticas alterações na maneira como o ser humano se comporta e reage ao seu meio.

Como dito anteriormente, nosso cérebro deixa de entender a atividade física como essencial para a sobrevivência, porém estamos agora diante de uma ameaça diferente, a ameaça das doenças crônico degenerativas não transmissíveis, e esse é um ponto crucial na relação humano/atividade física, pois durante a evolução da espécie nosso organismo foi acostumado a responder a eventos agudos, a perigos iminentes, com a evolução de nossa capacidade cerebral passamos a ter a capacidade de antecipar eventos e apesar dessa capacidade ainda não estar completamente afinada com os acometimentos dos problemas crônicos de saúde é ela que pode representar uma esperança de conseguirmos lidar com essa ameaça e fazer com que nosso cérebro, de modo mais instintivo, ative o sinal de alerta em relação ao nosso comportamento relacionado à saúde.

Por enquanto, precisamos usar maciçamente a capacidade que nos diferencia dos demais seres e racionalizar as ocorrências para deliberar em relação nossos atos até o momento que o cérebro compreenda a recompensa que existe em praticar atividade física mesmo que não seja para fugir de uma fera selvagem.

Porém, o que se observa atualmente é que estamos perdendo a luta entre o consciente e inconsciente, neste sentido, uma observação rápida na relação atual do homem com a tecnologia e suas consequências no estilo de vida relacionado à saúde já nos permite algumas inferências. 

Atividade física, sedentarismo e desfechos para saúde 

São fartas as evidências sobre a relação entre níveis insuficientes de atividade física, comportamento sedentário e desfechos negativos à saúde, juntos, esses comportamentos são considerados como um dos principais fatores de risco para mortalidade e morbidade no mundo todo, fator determinante para desenvolvimento de doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e diabetes. 

Dados da World Health Organization (WHO, 2018) demonstram que a cada quatro adultos um não é suficientemente ativo, mais de 80% da população mundial de adolescentes também seguem esse padrão. Essa classificação é feita com base no ponto de corte estabelecido pela própria WHO sobre o mínimo necessário para ser considerado um indivíduo ativo:

  • 5 a 17 anos: ≥60 minutos de atividade moderada à vigorosa diariamente, devendo conter, preferencialmente, brincadeiras, jogos, esportes, transporte, tarefas gerais, recreação, educação física e exercício programado;
  • 18 a 64 anos: ≥ 150 minutos em intensidade moderada de atividade física aeróbica por semana ou pelo menos 75 minutos de atividade em intensidade vigorosa. Para benefícios adicionais 300 minutos de atividade aeróbica moderada ou 150 minutos de atividade vigorosa. Atividade de fortalecimento muscular devem ser incluídas em dois ou mais dias por semana.
  •  > 64 anos: mesma recomendação para adultos, porém, para indivíduos com a mobilidade comprometida, se aconselha atividades para melhora do equilíbrio em três ou mais dias da semana.

Em relação ao Brasil, vejamos os dados do levantamento Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. O Vigitel se trata da estimativa sobre a frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal realizado a cada dois anos. 

Abaixo, os dados relacionados à prática de atividade física no tempo de lazer de homens e mulheres com idade igual ou superior a 18 anos.

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Fonte: Vigitel (2019).

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Fonte: Vigitel (2019)

Abaixo o percentual de homens e mulheres que praticam atividade física durante o deslocamento.

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Fonte: Vigitel (2019)

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Fonte: Vigitel (2019)        

Os dados das figuras acima demonstram que, na maioria das capitais, mais da metade dos indivíduos não praticam atividade física em seu tempo livre, o que sugere que estejam optando por formas de lazer sedentárias ou insuficientemente ativas, em relação a essas valências o VIGITEL (2019) levantou que a prevalência de adultos com prática insuficiente de atividade física variou entre 38,2% em Macapá e 46,6% em João Pessoa. 

Entre homens, as maiores prevalências foram encontradas em Recife (38,0%), Manaus (37,1%) e São Paulo (37,0%) e as menores em Curitiba e Macapá (29,3%) e Florianópolis (29,5%). 

Entre mulheres, as maiores prevalências foram observadas em São Luís (55,6%), João Pessoa (55,0%), Rio Branco e Rio de Janeiro (53,6%), e as menores no Distrito Federal (44,9%), em Palmas (46,1%) e em Macapá (46,4%).

Já em relação ao comportamento sedentário a prevalência variou entre 10,5% em Cuiabá e 16,0% em Recife. 

Entre homens, as maiores prevalências de sedentarismo foram observadas em Boa Vista (17,1%), Porto Velho (16,7%) e Recife (16,2%), e as menores em Florianópolis (9,7%), Cuiabá e no Distrito Federal (10,4%). 

Entre as mulheres, as maiores prevalências foram observadas no Rio de Janeiro (17,6%), Natal (16,2%) e São Luís (16,1%), e as menores em Campo Grande (9,6%), Cuiabá (10,6%) e Curitiba (11,0%).

Outras evidências ainda sugerem que o comportamento sedentário apresenta uma contribuição para desenvolvimento de transtornos de ansiedade, estresse e possui relação com a depressão. 

Existe a possibilidade de que um indivíduo sedentário passe a ter uma percepção não satisfatória em relação sua autoestima ao passo que esse comportamento passa a ficar evidente em sua forma física e em sua capacidade funcional (capacidade de realizar as tarefas diárias com disposição e sem percepção de fadiga excessiva). 

Outros dados demonstram que vários problemas de ordem osteomusculoarticular também acompanham esse comportamento, ao passo que a prática regular de atividade física tem se apresentado como fator protetor para todos esses acometimentos.

Os dados em relação à participação em atividade física e comportamento sedentário no Brasil e no mundo são extremamente preocupantes, porém parece que esses números e a informação de que a principal causa de morte no mundo sejam as doenças coronarianas, intimamente ligadas à prática insuficiente de atividade física e ao sedentarismo, não são capazes de fazer com que nos tornemos indivíduos ativos de modo mais instintivo como nossos antepassados. 

Veja bem: as doenças coronarianas matam mais do que qualquer outra causa, trânsito, desastres naturais, guerras, terrorismo, etc. Por qual razão essa informação por si só não promove uma alteração de hábitos automaticamente em nós seres humanos que vivemos em busca de prolongar nossa permanência no planeta?

Novamente, formulo a hipótese que esse mal, tão devastador, se defende de nossa ação contra ele por ser crônico e não agudo como nos acostumamos ao longo de milhões de anos, nos acostumamos a sermos emergentes e não preventores, isso tem um grande impacto em nosso comportamento porque, queira ou não, foi assim que atingimos o topo da cadeia alimentar. 

Conclusão

Ao longo dos últimos anos temos descoberto muito sobre como nosso cérebro funciona nas mais variadas situações, o que tem nos proporcionado a formulação de hipóteses muito promissoras em relação ao nosso comportamento relacionado à saúde. 

Esses achados nos permitem inferir que o cérebro aprendeu mais a reagir do que planejar como característica do próprio contínuo da evolução no nosso cérebro em sua interação com o ambiente. Portanto, por esse prisma podemos compreender que estamos lidando com uma “atualização do sistema” estamos em fase de testes e procurando entender como fazer o melhor uso dessa nova tecnologia.

No entanto, não aprendemos sobre nosso comportamento atual observando apenas a descobertas recentes, aprendemos muito olhando para os primórdios da espécie humana, e quando observamos como evoluíram ao longo de milhões de anos podemos compreender que o ambiente, sempre imponente, apresenta as suas demandas e, a fim de sobreviver vamos encontrando meios de nos adequar à ele e perpetuar. 

O que parece evidente é que no momento essa ameaça à longo prazo não parece tão ameaçadora para nosso cérebro tão acostumado a reagir.

Nesse contínuo, as facilidades do cotidiano atual permitem que nosso cérebro identifique muitas recompensas de fácil acesso transformando nossa relação com a atividade física conflituosa, pois: por que praticar atividade física se não dependo dela para me defender, caçar, coletar, plantar e em muitos casos trabalhar. 

Assim sendo, ainda precisamos educar nosso cérebro, por repetição, pois, ao executarmos atividade física de modo constante, essa poderosa máquina passa a fazer as associações entre atividade física e as recompensas desse comportamento para que esse hábito seja incorporado de modo natural e comum ao nosso dia a dia.

Luiz Roberto Paez Dib
Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)

 

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