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Descubra Influências para a Adesão e Aderência ao Exercício Físico

Vivemos nos últimos anos uma explosão do mercado fitness no Brasil, em que mais pessoas estão buscando a adesão e aderência ao exercício físico e por serviços de saúde, a fim de conseguir corpos visualmente mais sarados.

Uma pesquisa de 2015 da IHRSA (International Health, Racquet & Sportsclub Association), com 18 países de diferentes continentes, mostrou que o Brasil é o segundo em número de academia por habitante. São 31800 academias por todo o país, com quase oito milhões de alunos matriculados.

No entanto, dados do mesmo levantamento da IHRSA apontam que apesar dos altos números, é baixa a taxa de permanência dos alunos nas academias: apenas 3,97% não desistem e continuam frequentando as aulas.

Além da baixa permanência nas academias de ginástica, uma pesquisa realizada pelo Ministério dos Esportes em 2013, com 8902 participantes com idade entre 14 e 75 anos, mostrou que 45,9% dos respondentes eram sedentários.

Sendo o sedentarismo prevalente entre as mulheres e crescente conforme o avanço da idade.

Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015, obteve resultado semelhante.

Das 161,8 milhões de pessoas entrevistadas, de 15 anos ou mais, apenas 37,9% praticaram algum tipo de esporte ou atividade física no período de referência.

Com toda divulgação que é feita dos benefícios da prática de esportes e atividade física para a saúde do corpo e da mente, por que ainda é tão alto o percentual de pessoas sedentárias e das que voltam à inatividade?

Influências para Adesão e Aderência ao Exercício Físico

Encontramos na literatura sobre o assunto os termos adesão e aderência relacionados à prática de exercícios físicos.

Em alguns casos eles são vistos como sinônimos ou usados de maneira indistinta, mas há autores que os diferenciam.

Como Telles et al. (2016), que esclarece que a adesão diz respeito ao processo de iniciação em uma prática de exercícios, enquanto a aderência trata da sua continuidade.

Embora exista a diferenciação entre os termos, os motivos que ‘impedem’ uma pessoa de começar a se exercitar podem ser os mesmos que a fazem desistir quando ela transpõe as barreiras iniciais.

Conforme a pesquisa do Ministério dos Esportes, os motivos apontados para o abandono da prática de esportes e/ou atividades físicas são:

  • Falta de Tempo ou Outras Prioridades (69,8%);
  • Problemas de Saúde ou De Idade (12,5%);
  • Cansaço, Preguiça ou Desmotivação (7%);
  • Problemas na Prática, Falta de Resultados ou Socialização (6,1%);
  • Falta de Espaços para Praticar (3,2%);
  • Motivos Econômicos (1,4%).

Falta de tempo

Nas diferentes pesquisas, tanto nacionais como internacionais, a falta de tempo é sempre apontada como principal impedimento para adesão e aderência ao exercício físico. Mas será que essa situação não poderia ser diferente?

A falta de tempo, na realidade, pode estar mais relacionada a pouca habilidade para administração do tempo.

Em muitos casos, se houvesse uma análise pessoal mais consciente dos motivos que levam à inatividade física é provável que a situação pudesse facilmente ser contornada.

Visualize: para um programa de atividade física adequado que inclui exercícios cardiovasculares, uma pessoa deve se exercitar, no mínimo, por uma hora, três vezes na semana.

Em uma semana, há 168 horas, se a pessoa se exercitar 3 horas por semana, ela estará dedicando apenas cerca de 1,8% do total de horas de seu tempo ao exercício físico.

E com os demais 98,2% de seu tempo, o que faz?

Muitos que dizem não encontrar tempo na agenda para a prática de exercícios físicos passam horas na frente da televisão fazendo “maratonas de séries”, por exemplo, hábito que por sinal só mantém o sedentarismo.

As dificuldades citadas normalmente revelam as prioridades de uma pessoa (WEINBERG & GOULD, 2017). No entanto, é necessário sempre estar atento para não atribuir de maneira simplista uma dificuldade pessoal a uma prioridade não relacionada ao exercício.

É provável que, apesar de todas as dificuldades, boa parte das pessoas gostariam de ser fisicamente ativa, mas por diferentes situações não consegue colocar o desejo em prática.

Por exemplo, uma pessoa com algum nível de depressão pode ter dificuldade em gerenciar seu tempo para se exercitar, muito embora saiba que a atividade física traria resultados positivos no apoio ao tratamento da doença.

Ambiente

Além dos motivos citados anteriormente, o ambiente físico também exerce influência relevante na decisão de aderir ou não ao exercício.

A começar pela localização, pois quanto maior for a proximidade entre local da atividade e a residência e/ou o trabalho, maior será a probabilidade de ocorrer a adesão e aderência ao exercício físico (WEINBERG & GOULD, 2017).

Entretanto, uma pessoa pode iniciar o exercício físico em uma academia próxima de sua casa, mas acabar desistindo pela falta de opções de aulas e horários, por exemplo, e preferir ir mais longe por um ambiente maior e com aparelhos de última geração.

Alguma vez já questionou seu aluno sobre em qual tipo de ambiente ele se sente mais motivado a se exercitar?

Acredito não ser necessário discutir a influência que a limpeza e a higiene do ambiente exercem nesse sentido também.

O ambiente social da pessoa também influencia os comportamentos saudáveis que ela adota e mantém em sua vida.

Isso quer dizer que nos casos em que a pessoa tem apoio de familiares e amigos, as chances de ocorrer uma adesão e aderência ao exercício físico são maiores.

Autoeficácia

Aspectos como percepção de tempo e ambiente ajudam a pessoa a criar seu senso de autoeficácia, o que reflete diretamente em sua motivação.

A autoeficácia é um construto da Teoria Social Cognitiva, de Albert Bandura, que, para o exercício físico, representa a capacidade de um indivíduo manter o hábito mesmo diante de impedimentos que possam surgir, a partir de sua percepção de sucesso e confiança.

Podendo ser explicada por diversos fatores, como:

  • Experiências Diretas;
  • Experiências Observadas nos Outros;
  • Persuasão Social;
  • Estado Emocional (SOUZA et al., 2013).

Quanto maior for a crença de autoeficácia, maior será a probabilidade da pessoa ter uma adesão e aderência ao exercício físico.

O comportamento de se exercitar é dinâmico, complexo e multideterminado por diversos fatores de ordem pessoal, comportamental e ambiental – a nível pessoal, a autoeficácia é um importante mediador para a prática de exercícios físicos.

Algumas situações podem alterar a percepção de autoeficácia, pois afetam o julgamento que as pessoas fazem sobre sua própria eficácia, são elas:

  • Fadiga;
  • Stress;
  • Ansiedade;
  • Tensão;
  • Dor.

Ou seja, muitos aspectos influenciam a adesão e aderência ao exercício físico, o que torna necessário ouvir o praticante em prol da manutenção do hábito:

  • Quais Motivos o Fazem Querer se Exercitar;
  • Quais são suas Preferências Quanto ao Ambiente Físico;
  • Quais são suas Experiências Similares Anteriores;
  • Como é o Apoio da Família e de Amigos;
  • Quais são as Dificuldades Percebidas;
  • Senso de Autoeficácia;
  • Dentre outros.

A Postura do Profissional de Educação Física

Em pesquisa realizada pelo IBGE, 33,7% das pessoas entrevistadas, a maioria, praticava o esporte principal em instalações esportivas com algum pagamento, tal como ocorre nas academias de ginástica.

Proponho, então, uma reflexão a partir de uma situação ocorrida comigo há alguns anos atrás nesse ambiente.

Eu já estava matriculada na academia havia algum tempo e estava iniciando um novo treino, prescrito com base em avaliação física atualizada.

Após um dia de treinamento de membros inferiores, relatei à professora que me acompanhava que um dado exercício havia me deixado com muitas dores no dia seguinte, uma dor muscular tardia bem mais intensa do que estava acostumada.

A orientação que recebi foi que com o tempo a dor diminuiria e que para evitar o incômodo, eu deveria tomar algum analgésico quando achasse necessário. O que você, estudante ou profissional da Educação Física pensa sobre essa orientação?

Do ponto de vista físico, não posso dizer se foi uma boa orientação, mas como aluna meu pensamento foi “Só isso que me sugere? Não é para tomar remédio que me matriculei na academia! ”.

Por minha própria decisão, passei a fazer menos repetições ou séries no aparelho que considerava provocar a dor.

Meu comportamento não estava correto, já que não era formada em Educação Física para saber a melhor forma de praticar um exercício físico.

Meu comportamento foi consequência da orientação recebida, que naquele momento foi como um ‘não ser ouvida’, um não ser considerada em minha individualidade, mas apenas em um padrão do que costuma ser: “com o tempo a dor melhora”.

Se meu senso de autoeficácia estivesse baixo naquele momento, talvez ao invés de diminuir repetições de movimentos eu diminuísse a frequência na academia, inclusive porque a dor associada ao exercício físico também é uma das causas que influencia a não aderência a programas de condicionamento e melhora de saúde.

Quando tentar motivar as pessoas a se exercitarem, tome cuidado para não reproduzir clichês que podem ter o efeito contrário ao desejado. Estar atento a este tipo de coisa também pode ajudar no comportamento de adesão e aderência ao exercício físico.

Inclusive, Weinberg & Gould (2017) apontam dificuldades que os alunos enfrentam, que muito têm a ver com a postura dos instrutores.

Segundo os autores, entre os motivos pelos quais as pessoas têm dificuldade em adesão e aderência ao exercício físico estão as:

  • Prescrições Rígidas e Restritivas;
  • Treinos Baseados Apenas nos Dados da Avaliação Física e em Princípios de Intensidade;
  • Duração e Frequência;
  • Estado Psicológico da Pessoa;
  • Dentre outros.

Esses fatos:

  • Pouco Colaboram para o Aumento da Motivação;
  • Não Colaboram com a Manutenção da Rotina de Exercícios;
  • Não Promovem a Auto Responsabilidade;
  • Não fortalecem as Pessoas para Fazerem Mudanças Comportamentais de Longo Prazo.

Perceba que diferentemente do que pode parecer, problemas de adesão e aderência ao exercício físico sofrem influências não só de características pessoais e situacionais dos próprios praticantes de exercício físico, mas também da postura dos profissionais envolvidos.

Nesse sentido, Anshel (2005) atribui a profissionais de diferentes áreas, inclusive médicos e enfermeiros, a “co-responsabilidade” pelos altos índices de sedentarismo e obesidade, já que recomendam a adoção de hábitos mais saudáveis como a atividade física, mas desconsideram especificidades da pessoa a quem falam.

Cabe, portanto, uma avaliação do indivíduo que vá além de suas medidas e condicionamento físico. O envolvimento emocional da pessoa com o exercício físico também precisa ser considerado.

Raramente as pessoas continuarão em programas de exercício se não considerarem a experiência agradável, mesmo quando isso significa melhora da saúde, da qualidade de vida e perda de peso.

Recomendações

Considerando que um dos principais apontamentos do tema é que as prescrições de exercício físico têm focado apenas em aspectos fisiológicos do indivíduo.

É necessário que você, profissional de Educação Física, também se atente a outros aspectos de seu aluno, como aspectos psicológicos. É básico que você ouça o que seu aluno lhe diz, que o considere em sua individualidade.

Isto é, quando ouvir “não consigo fazer tal coisa”, pensar que a pessoa pode ter uma dificuldade decorrente de:

  • Deficiência Física;
  • Falta de Condicionamento Físico;
  • Falta de Conhecimento/Experiência;
  • Falta de Motivação;
  • Dentre Outros.

Não dê respostas “padrões” sem verificar o que de fato aquele aluno quer dizer.

Ajude as pessoas a se sentirem bem em relação ao corpo por meio de apoio social, encorajamento e adaptação das atividades para atender a suas necessidades e capacidades.

Tente passar aos alunos a sensação de sucesso e competência em seus programas de exercício para aumentar o desejo de continuar participando.

Você pode se perguntar: se sou profissional de educação física, por que vou fazer isso? Ou como vou fazer isso?

Bem, como foi dito anteriormente, diferentes fatores influenciam a adesão e aderência ao exercício físico, e se você de fato deseja colaborar pela melhoria das estatísticas sobre o sedentarismo, deve saber identificá-los para uma orientação mais adequada e personalizada.

Você também pode contar com o apoio de outros profissionais para orientação.

No que diz respeito a aspectos emocionais, você pode contar com o trabalho do psicólogo do esporte e do exercício físico tanto para aprender a identificar e trabalhar com esses aspectos no treinamento físico, como para encaminhar seu aluno com vistas à adesão e aderência ao exercício físico, bem como para melhora do rendimento no treinamento.

Em resumo, é importante que você busque formas de ajudar seu aluno a superar as barreiras, sejam elas quais forem, na adoção de hábitos de vida mais saudáveis e possa contribuir por uma qualidade de vida de uma população mais saudável.

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Referências
ANSHEL, M. H. Applied exercise psychology: a practioner’s guide to improving client health and fitness. Nova Iorque: Springer Publishing Company, 2006.
BRASIL É O SEGUNDO EM NÚMERO DE ACADEMIAS. ATIVO. Disponível em: https://www.ativo.com/fitness/noticias-fitness/brasil-e-o-segundo-em-numero-de-academias/. Acesso em: 02 mar. 2018.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios: Práticas de Esporte e Atividade Física. Rio de Janeiro: 2017. Disponível: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv100364.pdf. Acesso em 09 ago 2018.
MINISTÉRIO DO ESPORTE. Diagnóstico Nacional do Esporte. Brasília: 2015. Disponível: http://www.esporte.gov.br/diesporte/diesporte_grafica.pdf. Acesso em 14 ago 2018.
SOUZA, C. A. et al. Autoeficácia e atividade física em adolescentes de Curitiba, Paraná, Brasil. CAD. Saúde Pública, on-line, Rio de Janeiro, v. 29, n. 10. p. 2039-2048, 2013. Disponível: http://www.scielo.br/pdf/csp/v29n10/a20v29n10.pdf. Acesso em 14 ago 2018.
TELLES, T. C. B. et al. Adesão e aderência ao exercício: um estudo bibliográfico. Revista Brasileira de Psicologia do Esporte, on-line, São Paulo, v. 6, n. 1, p. 109-120, 2016. Disponível: https://portalrevistas.ucb.br/index.php/RBPE/article/view/6725/4286. Acesso em 14 ago 2018.
WEINBERG, R. S; GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Written by Érika Oliveira

Érika Oliveira

Formada em Psicologia pela Universidade São Judas Tadeu (2010). Cursando Especialização em Psicologia do Esporte e da Atividade Física no Instituto Sedes Sapientiae. Atuação voltada para desenvolvimento e manutenção de rotinas que incluam a atividade física e/ou o esporte, estes vistos como parte essencial no processo de formação do indivíduo. Administra a página Psicoexercício do Facebook.

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